domingo, 16 de fevereiro de 2014

O rádio em São Borja: Parte VI - RÁDIO CONTINENTE FM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim.

Rádio Continente FM

Em 2002, uma associação composta de 22 pessoas solicitou a concessão de uma outra rádio comunitária para São Borja: era a rádio Continente FM. 

Montada pelo técnico Flinte, ela era sintonizada na freqüência 88.1 e funcionou aproximadamente por um ano. 

A rádio foi uma iniciativa de Mário Aquino (diretor de operações), Wolmer Jardim, diretor de jornalismo e Elenir Terezinha dos Santos, diretora administrativa e financeira. 

A rádio funcionou na casa de Elenir Terezinha, na esquina entre a avenida Cândido Falcão e a rua Coronel Lago. 

“A torre da antena ficava no pátio da casa” lembra Aquino. Segundo ele. a rádio começou a funcionar sem a concessão, mas respaldada por uma liminar judicial. 

“Tocava desde Blues, Jazz até MPB. Só nunca tocamos sertanejo”, lembra Aquino.

Passaram pela rádio alguns colaboradores entre eles o jornalista José Newton Falcão, os radialistas José Antônio Degrazzia e Jota Ataíde Diniz e o locutor Deco Molinos. 

Segundo Aquino, quando a rádio estava completando quase um ano de funcionamento, a liminar foi derrubada por um recurso da Anatel e teve que fechar suas portas. 

Mas esta associação não desistiu e ainda espera a liberação da concessão pelo Ministério das Comunicações.


Alunos/pesquisadores entrevistando Mário Aquino (camisa branca).




Mário Aquino e Deco Almeida

O radialista Mário Aquino iniciou sua carreira no rádio em 1956, aos 14 anos, na cidade de São Francisco de Assis. Em 1959, transferiu-se para São Borja juntamente com sua família e, de forma artesanal, fundou, com os irmãos Hiram Aquino e Mary Azambuja, a rádio Continente AM. Em 2002, criou a rádio Continente FM.


Texto e pesquisa: Cezar Brites, Glaucia Daniela Streck, Lucas Martins Carvalho, Márcio Cavalheiro, Michel Silva Benites, Oneide Oliveira de Oliveira e Tiago da Silva Castilhos.

O rádio em São Borja: Parte V - RÁDIO BUTUI FM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim. (Fotos arquivo pessoal de Íbaro Rodrigues)


Rádio Butuí FM


A história da rádio Butuí FM está intimamente ligada a trajetória pessoal do radialista Íbaro Rodrigues. Quando ainda era vereador, em 1998, encaminhou pedido de concessão de uma rádio comunitária para São Borja. Essa vontade “sempre foi como radialista e não como vereador”, enfatiza Rodrigues. Um ano antes, Rodrigues, foi como narrador à São Paulo, cobrir a Copa São Paulo de Futebol Júnior, em Bragança Paulista, a convite da rádio Caxias AM, de Caxias do Sul. Na época, ele fez amizade com o radialista João Belchior Goulart, que teve o nome em homenagem ao ex-Presidente da República Jango, que era natural de São Borja. “Como eu era samborjense fechou todas. Ele me convidou para conhecer a rádio comunitária da Igreja Católica que ele trabalhava em Bragança Paulista. Fiquei 20 dias lá conhecendo o processo da rádio comunitária” afirma Rodrigues.


Ainda em 2000, enquanto ainda aguardava a liberação da concessão, Rodrigues trabalhava na rádio Cultura AM de São Borja, quando teve uma conversa com o diretor da emissora Roque Auri Andres. De acordo com Rodrigues, “Uma das raras vezes que o Roque foi no estúdio ele veio falar comigo sobre a rádio Continente FM e disse que essa rádio era irregular porque só existia uma rádio liberada para São Borja no Ministério das Comunicações, que é da Associação Cultural União Zona Sul. E eu era o presidente da associação, só que ele não sabia e nem eu sabia que a rádio tinha sido liberada. Depois ele descobriu e veio falar comigo aí eu disse que ele seria o primeiro saber quando eu fosse montar a rádio. Aí eu passei a agilizar o processo”.




Ocorreu um encontro entre vários radialistas e a Anatel e Rodrigues foi um dos sorteados para ter uma reunião com o então Ministro das Comunicações João Pimenta da Veiga Filho no qual aproveitou a oportunidade para informar sobre sua solicitação de concessão de uma rádio comunitária para São Borja. “Eu consegui falar, por cinco minutos, com o Ministro das Comunicações e ele me garantiu que eu ganharia a liberação. Quem fez a liberação na Câmara dos Deputados foi o então secretário Severino Cavalcante e no Senado quem foi a relatora do nosso projeto foi a Emília Fernandes, que é gaúcha. Então tudo isso facilitou” contou Rodrigues. Umas das maiores dificuldades em instalar uma rádio em cidades fronteiriças, como é o caso de São Borja, é a liberação do Conselho de Defesa Nacional por tratar-se de uma área de segurança nacional. Essa liberação veio em 15 de abril de 1999.



O intuito inicial de Rodrigues era fazer uma programação voltada para os jovens. Até mesmo o nome inicial era sugestivo: “Jovem Sul”. Uma outra idéia era fazer uma rádio voltada especificamente para os são-borjenses nativistas, o nome seria “Rádio Angüera”. O locutor Paulo César Ribas Lopes, o Cardeal, que trabalhou no início da rádio lembra que “Íbaro estava indeciso quanto ao nome. Íbaro lembrou do rio Butuí, que passa pela cidade. Ele pesquisou muito e descobriu que significava Rio das Mutucas”. Assim, ficou definido o nome da: Rádio Butuí FM.





Cardeal exerceu papel importante no início das atividades da rádio Butuí FM. Pois ele possuía uma empresa de aluguel de equipamentos de som para eventos. Na época, ele foi pedir emprego na rádio Fronteira FM quando lhe informaram que Rodrigues estava abrindo uma nova rádio na Cidade. Ele conta: “eu fui até a casa do Íbaro e me apresentei, como Cardeal, e que tava a fim de trabalhar na rádio e que já tinha experiência com som. Quatro dias depois ele me ligou e disse que queria falar comigo. Ele me disse que tinha comprado um transmissor só que não tinha mesa de som, microfone, toca CD. Como eu tinha esses equipamentos acabei emprestando a ele e trabalhando na rádio Butuí FM”.



Lopes ainda lembrou que, antes de começar a funcionar a rádio, o prédio precisava de uma boa reforma: “Ajudei na pintura, na colocação de carpete e até subia na antena para ajustar a direção para que outras localidades pudessem sintonizar a rádio”, lembra.




A rádio Butuí FM foi colocada no ar, em caráter experimental, no dia nove de julho de 2001, às 16 horas, com a música “Agenda Rabiscada1”. O primeiro locutor a fazer a comunicação ao vivo foi Íbaro Rodrigues, ainda em caráter experimental. Oficialmente, a rádio foi inaugurada no dia 1º de agosto de 2001, com a voz do locutor Eduardo Belmonte.



Segundo Cardeal, a rádio foi bem aceita no início das atividades sendo ele o primeiro operador de mesa e a primeira voz “no ar” foi a do radialista Nelson Oliveira que tinha gravado a seguinte chamada: “Rádio Butuí FM, São Borja, Rio Grande do Sul. Da terra dos presidentes transmite a Rádio comunitária Butuí FM”.



A rádio Butuí leva ao ar, diariamente, uma programação, com músicas variadas, noticiários e grande participação dos ouvintes através do telefone, cartas, recados e internet. O programa de maior audiência é o “Bricão da Butuí”, que vai ao ar todos os sábados das 12 às 14 horas. O programa consiste em mediar a compra e a venda de artigos usados entre os ouvintes. Durante toda a semana fica disponível um arquivo, na recepção da rádio, para os ouvintes depositarem suas propostas e contatos que serão divulgados no programa. O principal apresentador é Íbaro Rodrigues, ocorrendo, em algumas épocas, um rodízio com outros locutores. A Butuí trabalha, hoje, com cerca de 20 profissionais.



Segundo Rodrigues a rádio Butuí foi a primeira rádio comunitária a transmitir um jogo de futebol internacional, entre River Plate X Grêmio, no estádio Monumental de Nunes, em Buenos Aires. A rádio também fez a cobertura da eliminatória da Copa do Mundo no jogo entre Argentina e Brasil, também em Buenos Aires, no ano que classificou o Brasil para a copa da Alemanha de 2006.












O rádio em São Borja: Parte IV - RÁDIO FRONTEIRA FM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim. (Fotos arquivo pessoal)


Rádio Fronteira FM

Logotipo na inauguração

Oinicio da implantação da rádio FM em São Borja se confunde com um momento propício para este tipo de emissora no Brasil e no mundo. Na década de 80 as rádios FM começaram a se expandir em todo o território nacional e esse movimento fez com que o empresário da Empresa Samborjense de Comunicações Ltda, Roque Auri Andres, vislumbrasse um novo canal de entretenimento, visto que a empresa já tinha um canal de rádio AM, a Cultura AM, e um jornal, a Folha de São Borja.



Estúdio da Fronteira FM.



Segundo o radialista José Antonio Degrazia, primeiro diretor da Fronteira FM, ao mesmo tempo em que Andres queria a emissora receava com sua implantação: “O Roque sempre tinha a idéia de montar uma FM, mas ele sempre postergava. Certa vez, veio um locutor de Porto Alegre chamado José Francisco Portela, o Jucata, natural de São Borja, que na época trabalhava na Rádio Guaíba, incentivou a implantação de uma FM em São Borja. Ele dizia ao Roque ‘tem que botar uma FM, tem que botar uma FM’. Aí o Roque decidiu”.

Depois de tomada a decisão, um grupo formado por Degrazia, Roque Andres, Francisco Fontela, Beto Ayub e Wolmer Jardim reuniam-se aos finais de tarde na fazenda de Degrazia para conversar informalmente sobre o projeto da rádio. José Carlos Rocha Almeida, conhecido na mídia de São Borja como Deco Almeida, afirmou que a criação da FM também se deve a um fator mercadológico que era o de diversificar o serviço oferecido pela Empresa Samborjense de Comunicações Ltda no rádio e, ao mesmo tempo, atender a um público específico, mais elitizado.

Mas, voltando ao inicio do projeto da rádio FM, o grupo fez várias viagens à Brasília, tentando conseguir uma concessão. Degrazia afirma que, inicialmente, a proposta era abrir uma emissora nova que não pertencesse a Empresa Samborjense de Comunicações Ltda e que pudesse até mesmo fazer certa concorrência com a Rádio Cultura AM: “a idéia era para ser tipo uma concorrência, até mesmo para haver uma motivação para outra rádio. A gente teria uma concorrência. Ainda haveria pessoas da Empresa Samborjense de Comunicações trabalhando nela”. Porém, o grupo foi informado de que a concessão de um novo veículo FM é um processo muito mais burocrático do que a liberação de concessão para uma empresa que já possui outra emissora, principalmente, se for uma AM. Tanto é verdade que a partir do momento que se decidiu criar a Fronteira FM ligada à empresa do Roque Andres a concessão demorou apenas seis meses para ter sua liberação.

A empresa de Andres investiu em equipamentos modernos considerados de primeira linha pela qualidade e potência. O dinheiro usado para compra foi uma espécie de empréstimo que a própria Empresa Samborjense fez para implantação da FM que, devido ao sucesso alcançado pela emissora, foi logo reposto: a FM recebeu um grande número de apoio publicitário que permitiu sua rápida consolidação na comunidade Samborjense. O atual gerente da emissora, Deco Almeida, disse que ela começou a funcionar no prédio da General Marques 998, onde, atualmente, funciona a Farmácia Phormula e no início da década de 90, a Rádio Fronteira FM mudou de endereço. Foi para e rua Riachuelo, 980, mesmo prédio da rádio Cultura AM. A Fronteira FM logo ocupou um espaço na sociedade principalmente em relação ao tipo de programação oferecida, pois diferente da Cultura AM (que privilegia a notícia e uma programação mais popular), apresentava música e notícias curtas com uma linguagem mais direcionada a um público específico, elitizado, que respondia diretamente no aumento das inserções publicitárias. Deco Almeida ainda ressalta que: “hoje a rádio Fronteira FM busca não ser tão maçante como a rádio Cultura AM, ela procura ter uma programação mais musical, notícias curtas e educativas”.

Antes da inauguração existiu uma campanha nos meios de comunicação para sensibilizar a comunidade para que ouvisse a nova rádio que entraria no ar primeiramente em caráter experimental para depois, se aprovada pela audiência, em caráter definitivo.


Técnico Serzo Brites, na inauguração do equipamento da Fronteira FM


Assim, em 20 de outubro de 1984 inaugura oficialmente em São Borja, a rádio Fronteira FM. O nome da rádio era em homenagem a uma antiga rádio de São Borja, a Fronteira do Sul AM que foi fechada no período da ditadura militar. Segundo Degrazia o nome da rádio seria “Vale do Butuí” caso fosse um grupo diferente que tivesse conseguido a concessão. O jornalista e colaborador da Fronteira FM Alberi Cogo reitera as palavras de Almeida quando afirma que a rádio “surgiu pela necessidade de mercado e para preencher uma lacuna de rádio FM na cidade”. Cogo ainda afirmou que “nos seus primeiros anos possuía uma programação musical mais elitizada, com musicas eruditas e MPB, sempre voltada para o entretenimento, como cultural, não exatamente ao jornalismo como é conhecido nas rádio AMs”

Outra entrevistada, Otália Pereira, professora universitária, jornalista e funcionária da rádio, mencionou um fato ocorrido na história da Fronteira FM, na década de 90, quando esta entrou em cadeia com a Rádio Líder, de São Paulo, que tinha um ritmo e padrão diferente do que o ouvinte da Fronteira FM estava acostumado a ouvir. “A comunidade rejeitou violentamente porque na programação não havia nenhum traço de identidade cultural com a cidade” esclareceu Otália. Essa parceria não deu certo porque conforme Deco Almeida “houve uma reclamação por ter pedido a identidade, ter se tornado uma rádio mais paulista, e não era isso que a comunidade queria”.

A Fronteira FM não possui departamento de notícias, e as que são veiculadas pela rádio tem na sua associada, a rádio Cultura AM.

Os jornalistas são os mesmos para as duas rádios e do Jornal Folha de São Borja, que pertence ao mesmo grupo jornalístico. De acordo com Leoni Escobar Dorneles, locutora que trabalhou na empresa em 2003, nos últimos cinco anos a programação da rádio Fronteira FM vem sofrendo mudanças. Estilos musicais mais populares começaram a ganhar espaço, por solicitação da audiência. “Há por parte da empresa zelo pela imagem dos profissionais que nela trabalham. Pretende-se manter um padrão de qualidade não só pelo desempenho dos profissionais como também por sua conduta social no meio em que vive. Em suma, a imagem do colaborador perante a comunidade conta pontos em seu ambiente de trabalho, sendo a avaliado constantemente como um todo” afirma Deco.

É também preocupação da rádio Fronteira FM manter um padrão de atuação de suas equipes nas atividades do dia-a-dia.





O rádio em São Borja: Parte III - RÁDIO CONTINENTE AM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim.

Rádio Continente AM


Outra rádio AM de grande importância nesta história da imprensa em São Borja é a Rádio Continente. A história oficial desta emissora deveria remontar ao seu processo de concessão e a sua abertura oficial, ou seja, sua primeira transmissão. Porém, a pesquisa não conseguiu nenhuma referência sobre esses aspectos. O que se tem sobre essa rádio, foi fruto da entrevista realizada com Mário Aquino, um dos fundadores da emissora. O radialista Mário Aquino iniciou carreira no rádio em 1956, aos 14 anos, na cidade de São Francisco de Assis. Em 1959, transferiuse para São Borja juntamente com sua família e, de forma artesanal, fundou, com os irmãos Hiram Aquino e Mary Azambuja, a rádio Continente AM.

Mais velho que Mário, Hiram já havia trabalhado em rádios dos grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo o que afirma Mário, os irmãos aproveitaram o fato de São Borja ser terra de políticos importantes, o que na época, facilitava o acesso a publicações, discos e pessoas pertencentes aos movimentos das vanguardas musicais e culturais do país. A partir de amizades de pessoas influentes, Hiram tinha acesso aos principais lançamentos musicais do Brasil, antes mesmo de eles estourarem no próprio Rio Grande do Sul. Isso ocorria através de uma espécie de ponte-aérea que ligava Rio - São Paulo a São Borja, propiciando que ilustres artistas passassem pela cidade: “São Borja era um pólo cultural da região”, relembra Mário Aquino.

Mas, na programação da rádio Continente, não só se apresentavam artistas de vanguarda da época, como também eram valorizados os artistas locais. Entre eles, os fundadores da rádio, que atuavam criando personagens cômicos ou dramáticos na constituição das rádio-novelas e nos quadros em estilo esquete teatral que chamassem atenção dos ouvintes.

Em 1961 a rádio foi tirada do ar. Atualmente, a cidade de São Borja conta apenas com uma rádio AM em funcionamento, a Rádio Cultura e duas rádios FM, sendo uma delas convencional e a outra comunitária, representando uma experiência inovadora .

O rádio em São Borja: Parte II - RÁDIO CULTURA AM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim. (Fotos arquivo pessoal)



Rádio Cultura AM



Com o fechamento da primeira emissora da cidade, a Rádio Fronteira do Sul, em 1975, o Ministério das Comunicações abriu licitação, em 1976, para que os interessados pudessem se habilitar e participar da concorrência para a instalação de uma emissora de radiodifusão de amplitude modulada (AM) em São Borja.

1978 - Primeira equipe de transmissão de carnaval 

O grupo registrado com a razão social de Empresa São-borjense de Comunicações Ltda. concorreu à licitação. Os nove sócios da empresa eram: Ulrich Arns, agricultor, Alfredo Arno Andres, agricultor; Bernardino Lopes Ferreira, pecuarista; Francisco Carlos Banderó, agricultor e comerciante; Carlos Ney Azambuja Brites, contabilista; Silvino Nicolli, comerciante; Sary Azambuja Amilíbia, comerciante; Arneldo Matter, advogado; Roque Auri Andres, administrador de empresas.


Confraternização da equipe esportiva depois da transmissão do jogo Grêmio e Cruzeiro de MG.


Para participar da licitação, que foi vencida pelo grupo, foi apresentado um projeto de mais de quarenta páginas, relatando as pretensões dos membros do grupo, o modelo de rádio a ser instalada, um perfil dos seus sócios, um levantamento das possibilidades sócio-econômicas do município, além de outras informações.


Crachá para a cobertura da copa Buenos Aires


Os diretores da emissora, Arneldo Matter, Roque Auri Andres, Cláudio Luis Vieira Figueiredo, Luiz Fernando Krindges Marques e Maria da Conceição Pacheco Carneiro, foram a Brasília assinar o contrato de concessão junto àquele Ministério.

Segundo o relato escrito cedido por Roque Andres, diretor da Empresa São-borjense de Comunicações, a liberação do Ministério Público foi divulgada no Diário Oficial da União em 12 de julho de 1976. No entanto, por se situar a menos de 200 quilômetros da fronteira do país, a emissora precisava, ainda, da liberação de um órgão específico do exército. Então, um documento assinado pelos nove sócios foi enviado à Comissão Especial de Faixa de Fronteira, a fim de solicitar a autorização.


Técnico Serzo Brites, Diretor Roque Andres e Deco Almeida.


Outras medidas importantes foram tomadas pela empresa, como a compra de equipamentos, que era uma orientação do Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel), o qual liberava ou não, cada um deles para o uso através de uma fiscalização minuciosa.


Em livramento equipe de transmissão esportiva



Outro passo decisivo foi a construção da sede, que demorou aproximadamente um ano, retardando a inauguração do veículo.

Desde a fundação da Rádio Cultura, em 26 de fevereiro de 1977 , importantes transmissões ficaram marcadas na história do veículo. Andres recorda, inclusive, da transmissão da morte do ex-ditador da Nicarágua, Anastácio Somoza, ocorrida no Paraguai em 1980. “Um Colaborador da nossa emissora, Hiram Aquino, que passava próximo ao local na hora que aconteceu o atentado, deu a notícia em primeira mão para São Borja. Só algum tempo depois, outras emissoras brasileiras de grande porte noticiaram o fato. Foi um furo inusitado para uma emissora do interior”, conta. A cobertura de dois encontros entre os ex-presidentes argentino e brasileiro, Carlos Menen e Fernando Henrique Cardoso, respectivamente, também foi ressaltada por Andres. Nas ocasiões, os políticos trataram da construção da ponte internacional em São Borja. Ainda no cenário político, por volta de 1990, o presidente Fernando Collor e seu vice, Itamar Franco, haviam se afastado do Brasil e, nessas circunstâncias, o então Presidente da Câmara Federal, Ibsen Pinheiro, assumiu a Presidência da República. A Rádio Cultura foi a Brasília e transmitiu direto do Gabinete Presidencial a posse do terceiro presidente são-borjense.


 Equipamento na câmara


O departamento de esportes foi responsável por, pelo menos, dois acontecimentos relevantes. Cobriu uma semifinal das eliminatórias da Copa do Mundo de 1986 em Assunção, no Paraguai, quando a Seleção Brasileira jogou contra a Seleção Paraguaia. Já em 1981, a Rádio Cultura transmitiu o jogo da semifinal da Taça Bronze, entre a Sociedade Esportiva São Borja e a equipe de Cuiabá, em Mato Grosso. Após, transmitiu a final do campeonato contra o time carioca Olaria, no Maracanã.


 Equipe esportiva em Cuiabá (MT), em pé Amarino Chaves e Paulo Correia, agachado Serzo Brites.





Para Andres, a principal diferença entre os primórdios da história da emissora e os dias atuais é a presença da tecnologia no controle da programação e da veiculação de anúncios e notícias. A programação da emissora ainda procura adequar os horários de acordo com a necessidade do público. Para o diretor da Rádio Cultura, José Carlos Almeida, o Déco, inevitavelmente a programação deve sofrer alterações para se adequar ao público, mas que no caso da Rádio Cultura uma linha foi mantida, ajustando os horários ao público ainda no formato utilizado há muitos. Andres relatou, inclusive, que a Rádio mantém programas com o foco no interior pela manhã, por volta das 5:30h, no início da tarde, às 13h e no final da tarde, às 18h. “Até às 12h temos programas musicais com informação e interação com o público”, ressalta.


Estúdio da Rádio Cultura


A Rádio Cultura destaca-se, também, pela realização de grandes eventos. Esse assunto foi abordado pelo diretor comercial da Rádio, Sidney Santos Rodrigues. Segundo ele, anualmente são realizados grandes eventos, como o Culturão, campeonato de Futsal que abriga diversas categorias e cerca de 70 equipes da cidade, da região, e até da Argentina, totalizando mais de mil e cinqüenta atletas, desde crianças de sete anos de idade até a categoria dos veteranos. Já a Festa do Caminhoneiro mobiliza milhares de profissionais das estradas em um baile aberto ao público, sempre realizado no inverno, no início de cada ano.








O engenheiro-chefe da Rádio Guaíba de Porto Alegre, Homero Carlos Simon e o técnico serzo Brites Rodrigues, na inauguração do transmissor da Rádio Cultura, em 1977. 





Transmissão de futebol em 1981

Transmissão de programa no auditório da Escola Sagrado Coração de Jesus.

Transmissão do Festival de música São Pedro

O rádio em São Borja: Parte I - RÁDIO FRONTEIRA DO SUL AM

Texto extraído do livro Memórias Sobre a Imprensa em São Borja, organizado pela Profa. Dra. Cárlida Emerim. (Fotos arquivo pessoal)

Rádio Fronteira do Sul AM


A história do rádio em São Borja começa com a ZYF-2, Rádio Fronteira do Sul AM. Segundo um artigo publicado no jornal 7 Dias, em 19 de novembro de 1967, assinado pelo comerciante Florêncio Gimenez, a Rádio Fronteira do Sul teria iniciado suas atividades em caráter experimental no dia 11 de agosto de 1940, e permaneceu assim durante 5 anos.

Durante esta atividade extra-oficial, foi enviada à rádio uma ordem judicial que determinava o encerramento das atividades enquanto não houvesse autorização oficial. Mas, ciente da importância do veículo para a comunidade, o delegado de polícia na época, Felipe Mello, que levou a comunicação aos responsáveis pela emissora, ao mesmo tempo garantiu seu funcionamento, assumindo total responsabilidade sobre o fato. Assim, a rádio manteve sua programação até 1945. Quando finalmente chegou a autorização governamental, o próprio autor do artigo foi a Porto Alegre e contratou um radialista conhecido na época, Mário Pinto, para assumir a gerência e a locução na Rádio Fronteira do Sul.



Equipe de transmissão do Carnaval.


A mesma publicação aponta que foram 13 os fundadores da Rádio Fronteira do Sul: Florêncio Gimenez, Ademar Paz de Mello, Manoel Luiz Fagundes, Ildefonso Dornelles, João Bicca, Augusto M. Aquino, Érico M. Castro, Amando Motta Gimezes, Sary Amilíbia, Ildefonso Tróis da Motta, José Tróis da Motta, Armando de Matteo e Júlio Caillar Ferreira. A rádio funcionava como sociedade anônima e todos os acima citados eram sócios da emissora. Mas, segundo o artigo, o idealizador da rádio e quem sugeriu seu nome, aprovado em reunião ocorrida na sala de sua casa, foi Florêncio Gimenez.

Embora não tenha uma data definida, Gimenez deixa a sociedade porque houve um incidente entre seu filho Amando Motta Gimenez e o próprio Ademar Paz de Mello, que se desentenderam por causa do motor a óleo adquirido pelos sócios da Fronteira do Sul para garantir o abastecimento de energia elétrica, já que na época São Borja sofria por constantes quedas de rede e falta de energia. Suas ações foram negociadas com o advogado e fazendeiro João Belchior Marques Goulart que, em 1945, seria eleito deputado estadual e iniciaria a carreira política até o golpe de 64 e a morte no exílio em 1976.



Viajem a Brasília na tentativa de reabrir a Rádio, fechada no Regime Militar, em julho de 1975.


Essa é a parte da história contada com base no único documento encontrado pela pesquisa: o artigo de Florêncio Gimenez. Há outra versão revelada pelo autor que teria sido a motivação para escrever o artigo: a inauguração do retrato do fundador Ademar Paz de Mello como parte das comemorações de aniversário da rádio, em 1967, organizada pela direção da época. Existiria, então, uma história verdadeira e outra falsa, conforme o autor revela num dos parágrafos: “É justa a homenagem que se presta a qualquer daqueles que trabalharam pela nossa Rádio Fronteira do Sul. Injusto é esquecer dos demais. Esta é a história verdadeira e a velha guarda samborjense a conhece perfeitamente”.

Um dos fundadores da Rádio Fronteira do Sul, participante da reunião que deu início à história do rádio em São Borja, o bioquímico Ildefonso Trois da Motta, com 90 anos de idade, lembra que a idéia de fundar uma rádio surgiu na oficina eletrotécnica de Florêncio Gimenez. De acordo com Ildefonso, Gimenez era argentino casado com uma são-borjense e sua loja de conserto de rádios estava localizada na esquina diagonal à Câmara de Vereadores. Na época, esclarece, o projeto de Gimenez era iniciar com uma estação “galena”, feita de forma artesanal, mas depois de conversas com outras pessoas, entre elas, Ademar Paz de Mello, resolveram ampliar a proposta ampliando o grupo de fundadores.

Há referências também desta rádio no Jornal de São Borja de 1961, no mesmo dia e mês da publicação do artigo no jornal 7 Dias, cinco anos depois, que apresenta a nova programação da Rádio Fronteira do Sul e anuncia como novo diretor artístico o radialista Hiram Aquino, egresso da Rádio Continente, extinta poucos meses antes.

Durante nossa pesquisa, um assunto salientado pelos entrevistados, foi as dificuldades e a precariedade em relação à aparelhagem utilizada na época. Conta João Paulo Corrêa, radialista aposentado, que no início da década de 70, as transmissões eram feitas com muito sacrifício: “As transmissões esportivas nós fazíamos, mesmo com toda a dificuldade que a gente tinha, porque nós não tínhamos toda essa aparelhagem que tem hoje”, afirma Corrêa. Principalmente quando a equipe precisava transmitir eventos esportivos fora do Rio Grande do Sul, essas dificuldades se evidenciavam, até porque, nesta época, nem o telefone, que hoje é tão comum, estava à disposição da equipe da Rádio Fronteira do Sul. Aliás, na rádio, a equipe tinha à disposição um telefone à manivela, no qual seguidamente os funcionários levavam choque, em função do magnetismo, ao fazerem uma ligação:

“Quando conseguia falar, mal conseguia ouvir o outro, do outro lado. Era um sacrifício”, conta.

O último presidente da Rádio Fronteira do Sul, o contador Leo Ayub Vargas, reforçou que a transmissão dos jogos era feita com muita dificuldade: “Em Santa Maria, chegávamos lá, alugávamos um telefone e pagávamos pelo aluguel dele por duas horas”. A equipe dividia-se e um pagava a gasolina, outro a hospedagem, o almoço e, assim, eram realizadas as transmissões, afirma Vargas. Nesta época faziam parte da equipe, o próprio Leo Vargas, José Nelson Tavares, Manoel Moreno e Serzo Brites, entre outros nomes. Além disso, a rádio era uma reunião de amigos e com muito esforço eles conseguiam juntar um salário mínimo para pagar aos funcionários, relata. Leo Vargas observa: “Hoje conhecem o valor da publicidade, e as transmissões dão lucros fantásticos”.

Na grade de programação da Rádio Fronteira do Sul, publicada no Jornal de São Borja de 19 de novembro de 1961, havia um programa apresentado em português e em espanhol, Hora Radial Argentina, como também havia uma forte preocupação informativa e de entretenimento, com diversos programas noticiosos sendo apresentados durante o dia e também programas de auditório com o conjunto próprio da emissora acompanhando diversos artistas da cidade e convidados até de Porto Alegre. Segundo essa publicação, pode-se concluir que o público participava da programação, pois poderia, através de cartas, sugerir músicas ou enviar dedicatórias para serem veiculadas na rádio.

Pelo relato de Leo Vargas, em 1967, durante a ditadura militar, São Borja recebeu o que na época era conhecido como canoa fiscal: uma vistoria completa na documentação e na arrecadação de impostos em diferentes empreendimentos da cidade. Na ocasião, foram constatadas irregularidades na documentação da Rádio Fronteira do Sul. Segundo Vargas, Elar, de quem ele não recorda o sobrenome, chefe do setor de Fiscalização do Imposto de Renda na cidade de Uruguaiana que atendia à toda a região, recomendou aos sócios da emissora que nomeassem um diretor mais experiente para cuidar da burocracia. Foi então, por indicação do próprio Elar, que Leo Vargas entrou na emissora.

Em função de trabalhar como contador e, naquele tempo, São Borja contar com apenas três escritórios de contabilidade, Vargas resistiu ao convite para se tornar diretor da rádio, mas, segundo ele, foram tantos apelos que aceitou o cargo: “Logicamente, como eu era novo, trinta e poucos anos, comecei a fazer inovações”.

Outra grande cobertura que era realizada pela Fronteira do Sul era o carnaval de São Borja, João Paulo Corrêa recorda que a emissora fazia a cobertura completa das festividades da cidade, desde os ensaios das escolas até o desfile, sendo uma diversão até para quem transmitia: “E a gente transmitia também da Argentina, gravava lá e passava depois, porque lá não tinha emissora de rádio; mas depois que a gente acabou as transmissões, acabou também o carnaval de São Borja”.


Transmissão da Rádio Fronteira do Sul..

Há muitas histórias vividas pelo diretor Leo Vargas ao longo dos anos. Uma lembrança triste para Vargas na rádio remete à proibição, por parte do governo militar, de as emissoras inserirem entrevistas com políticos fora dos horários pré-determinados: “Nenhum candidato a deputado poderia fazer uso dos microfones fora do horário político; chegavam os políticos do MDB que visitavam a cidade e avisávamos que infelizmente não poderiam falar, tomávamos nota que estavam visitando São Borja e comunicávamos depois”. Numa ocasião, um candidato da Arena chegou ao município e foi conceder entrevista na rádio. Lá chegando foi informado de que não poderia falar. Imediatamente fez uma ligação para Brasília e repassou o telefone a Leo Vargas: “Aqui é do Dentel e o deputado ‘fulano de tal’ está reclamando que não estão deixando ele fazer uso do microfone, estou determinando que o senhor libere o microfone para ele”, relata. “Eu apenas concordei, o candidato foi ao microfone, deu seu recado e foi embora. É o horror da ditadura, porque os ditadores e seus subordinados dão uma ordem, voltam atrás por interesse e depois aquela ordem volta a valer”, desabafa.

Outro ponto salientado por Leo Vargas é a utilidade da rádio naquele tempo. Ele conta que até remédios eram solicitados para outras cidades pelo microfone da Rádio Fronteira do Sul. As dificuldades eram tantas que Lauro Pedro de Alcântara é considerado por Vargas como um herói. Pois Alcântara, para transmitir da cidade vizinha de Itaqui, ao vivo, fazia uma ligação direta no fio de arame de uma cerca comum, dessas que delimitam áreas rurais e estradas, naquela cidade, depois religava nos pontos interrompidos ao longo do trajeto até São Borja, transmitindo, assim, o evento radiofônico via aramado para todos os ouvintes sintonizados na frquência ZYF-2.

Assim que assumiu a direção da rádio, Leo Vargas tratou de continuar as negociações para manter a mesma em funcionamento. “Estava sempre viajando para Porto Alegre e Brasília para negociar a situação da rádio”, recorda. Mas chegou o momento, já em 1974, em que foram pedidos muitos documentos pelas autoridades militares. Vargas afirma que todos os documentos possíveis foram providenciados pela equipe diretiva, mas uma carta, escrita por João Goulart, na qual ele transferia todas as suas 125 ações nominais para os funcionários da rádio, oito anos antes, não pôde adquirir caráter legal. Para o ex-diretor, os militares acreditavam que Goulart ainda exercia algum tipo de poder sobre a emissora que controlava diretamente do exílio.

A trajetória da Rádio Fronteira do Sul teve seu final em 1975 pela ditadura militar que controlava o país. De acordo com Leo Vargas, um representante do Dentel chegou em São Borja, foi até o local onde estava instalada a antena e cortou o fio que ligava ao transmissor. Sem nenhum comunicado oficial. Vargas conta que, diante do fato consumado, decidiu fechar a Rádio e distribuir entre os funcionários, a título de indenização, os móveis e equipamentos. O que restou do acervo e da documentação da ZYF-2, Vargas guardou no seu escritório de contabilidade. Algum tempo depois, o prédio foi atingido por um incêndio que acabou destruindo tudo o que havia ali sobre a Rádio Fronteira do Sul. A história do rádio AM são-borjense registra, nessa época, um vazio de dois anos.

Aconteceu o que parecia impossível: as dificuldades de comunicação aumentaram. “Até os avisos fúnebres tinham que ser feitos na televisão em Uruguaiana, naquele tempo a TV tinha obituário”, conta Leo Vargas. Somente em 1977 a cidade volta a contar com uma emissora, a Rádio Cultura.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Apresentação do Livro Simplesmente Deco



Conheci a professora Cárlida Emerim no meu primeiro dia de aula no Curso de Jornalismo na Universidade Federal do Pampa, em São Borja (RS). A universidade estava em implantação, então, ela era, na época, diretora e professora. Ainda naquela primavera de 2006, ela me convidou para participar da equipe original de pesquisadores do Grupo de Pesquisa História da Mídia. As primeiras pesquisas resultaram em uma publicação inédita na região, a recuperação da história dos veículos de comunicação da cidade: o livro intitulado “Memórias sobre a Imprensa em São Borja”, que teve a organização dela e da professora Joseline Pippi.
Um dos capítulos envolvia contar a história do Jornal Folha de São Borja. Deco Almeida, assim, começava a ganhar atenção do Grupo de Pesquisa, já que seu trabalho, riquíssimo, como colunista social, registrava os fatos mais importantes da sociedade são-borjense nos últimos 25 anos. Então quando a Marta de Paula, executiva da Editora Conceito, teve a ideia de editar uma coleção de livros sobre Colunismo Social inicialmente no estado, optamos por começar em nossa cidade natal. Assim, convidamos Deco Almeida para ser o primeiro homenageado.
A professora Cárlida Emerim, como entusiasta desse gênero do jornalismo, já havia exercido a função de cronista social durante oito anos em jornais da serra gaúcha, adquirindo, com a experiência, o significado e a função desta área do jornalismo tão valorizada pela sociedade. Assim, quando em 2008, o aluno do Curso de Jornalismo, bolsista de iniciação científica Luciano Gonçalves da Costa mostrou interesse em aprofundar as pesquisas sobre as colunas sociais, os professores pesquisadores do Grupo de Pesquisa História da Mídia, Mara Ribeiro e Marcelo Rocha, não titubearam em direcionar à Cárlida a orientação da pesquisa.
Foi para mim uma felicidade quando ela aceitou o convite de assinar, juntamente comigo, essa obra que você agora tem em mãos. O livro foi dividido em partes, o que permite uma leitura sequencial ou aleatória de acordo com o interesse de cada um. Num primeiro momento há três partes em que personalidades da sociedade são-borjense emitem um pequeno parecer sobre o trabalho do Deco, lembrando sempre, das quase três décadas de colunismo. Depois há sete partes que recuperam os principais registros desde o ano de 2008 (quando do 25º aniversário da coluna) até novembro de 2010. Num terceiro momento do livro encontramos um pouco da vida e da trajetória profissional de Deco Almeida, bem como suas crônicas amplamente apreciadas pelos leitores. E finalizando a obra, dois artigos sobre a importância deste gênero reconhecidamente essencial para a convivência social de uma comunidade.
Cada seção foi precedida por fotos de galhos secos de árvores por brotar encontradas pelas ruas da cidade de São Borja, lembrando que a vida sempre prossegue, que depois de cada inverno vem a primavera, época de renovação, oportunidades e prosperidade.
Essa pesquisa só foi possível graças ao despreendimento incondicional do jornalista Roque Auri Andres, proprietário do Jornal Folha de São Borja, que gentilmente cedeu o arquivo digital e a competência e boa vontade de Daniele Godoi.
O trabalho de seleção de fotos, notas, revisão, pesquisa, busca de material, atualização, contato com as fontes e a produção gráfica do material recuperado foi organizado por Marta de Paula e Nely Carvalho, durante 12 meses de intenso trabalho, extraeditora, havendo com isso, o mínimo envolvimento do colunista no desenvolvimento e organização do material. Outra novidade foi a inserção de publicidades na parte Coluna Social, o que bem caracteriza os espaços publicitário no jornal e o seu valor diferenciado do restante do veículo e que também tem seu sentido no contexto deste trabalho. Caube esta responsabilidade a Diretora Comercial da Editora, Nely Carvalho, que também dedicou meses para que esse trabalho fosse realizado.
No estilo de comentários empregado por Deco Almeida nota-se uma elegância e uma simplicidade, mesmo quando algumas vezes entram críticas sobre a sociedade. O livro tem a pretensão de enfatizar a trajetória de Deco Almeida neste percurso onde consequentemente estaremos recuperando a nossa trajetória e a de nossa comunidade.
Boas recordações e boa leitura!

Prefácio do livro Gaúcho de Fronteira

Prefácio do livro "Gaúcho de Fronteira, uma análise sobre sua representação Simbólico-Cultural"


Fronteira em debate: 
olhares sobre a identidade gaúcha


Ao examinar o que designa por comunidades imaginadas, Benedict Anderson coteja o processo de sentimento e consciência nacional na Europa e na América. Para o autor, na Europa, a entronização da imprensa no tecido social acabou por fragmentar a unidade estabelecida pelo latim, além do desgaste do poder religioso, enfraquecido, também, pela ascensão das línguas vernáculas. Por outro lado, na América, a concepção de nacionalidade vinculava-se a um sentimento telúrico, ou ainda, a uma estrutura horizontal de sociedade na qual os projetos, a despeito das diversidades sociais dos indivíduos, possibilitavam a ideia imaginada de um passado partilhado e comum, limitado territorialmente por um continente em formação.
Essa relação entre a terra de origem e o sentimento que ela provoca afigura-se como um tema de extrema relevância na contemporaneidade. Numa época em que “nossas raízes viraram rotas”, como define Stuart Hall, ou ainda, em um tempo em que há, inegavelmente, uma perda  da  relação  “natural”  da  cultura  com  os  territórios  geográficos  e  sociais, como define Néstor Canclini, a pergunta que se impõe é: que percursos de análise devemos seguir?

Mais complexo ainda torna-se uma reflexão sobre território (simbólicos, geográficos e culturais) se englobarmos o gentílico “gaúcho”, expressão sobejamente debatida e cujo tema é cercado por manifestações, não raramente, passionais. Nesse sentido, o mérito do trabalho de Fábio Gudolle e Cezar Rodrigues está na ousadia em discutir um assunto que, apesar das inúmeras referências, ainda é cercado de controvérsias.

Para além disso, a fluidez das fronteiras e suas possíveis definições como não-lugar (Marc Augé) ou lugar de passagem, talvez dê pistas sobre como compreender a identidade do gaúcho na contemporaneidade. Identidade em crise - é bem verdade. Se por um lado, a relação entre a gauchidade vincula-se ao território e à imagem do passado e da memória e da cultura em comum; por outro, a pós-modernidade tenciona para a fragmentação do sentimento telúrico e para a busca pela integração a um eterno presente e a uma promessa de inserção global. Para onde ir, então?

Nossa identidade de fronteira explica, de certo modo, quem somos, por meio de uma extensa cadeia de negações que também são fluidas. Isso significa dizer que ser gaúcho é um pouco ser (e não ser) argentino, uruguaio e brasileiro. Nossa identidade, portanto, configura-se na positividade e na diferença com nossos vizinhos. No cerne desse debate tão prolífero quanto polêmico está o livro de Gudolle e Rodrigues que nos serve como uma leitura provocativa e especular que mais do que fornecer respostas nos encaminha a novas perguntas ao som da música nativista e da diversidade étnica e cultural que, orgulhosamente, nos constitui.

Marcelo Rocha
Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Autor de “Não ouça tão depressa toda essa dissonância” (Rígel, 2010) e “No reino da serpente: ideologia, transgressão e leitura em Pedro Juan Gutiérrez” (Publit, 2008), entre outros. Líder do Grupo de Pesquisa em História da Mídia (Unipampa/Cnpq).

Apresentação do Livro O Gaúcho de Fronteira

Apresentação do livro
"Gaúcho de Fronteira,
uma análise sobre sua representação simbólico-cultural", de Cezar Augusto Rodrigues e Fábio Gudolle



Este livro é a junção de dois textos dos bacharéis em comunicação social, com habilitação em jornalismo pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa - campus São Borja), Fábio Gudolle e Cezar Augusto Rodrigues, que são fronteiriços e missioneiros, sendo o primeiro natural de Itaqui e o segundo de São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul.
Naturalmente, por morarem separados da Argentina apenas pelo Rio Uruguai, eles se consideram privilegiados para pesquisar sobre a influência dos países platinos na identidade do gaúcho de fronteira. O que motivou a concepção deste trabalho foi o interesse de ambos em conhecer suas origens.  
A primeira parte desta obra versa sobre a influência da identidade platina na formação da cultura do gaúcho de fronteira. Ela propõe uma discussão acerca de uma identidade distinta do restante de outras regiões do Estado do Rio Grande do Sul: a identidade de fronteira. E para isso recorre aos conceitos de cultura propostos por Maria Elisa Cevasco, assim como também de identidade cultural na pós-modernidade defendida por Stuart Hall. Para isso, utilizou-se como corpus quatro músicas nativas compostas por autores da região de fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai, que se destacam no meio cultural. Desta forma, optou-se por utilizar a Análise de Discurso Crítica proposta por Norman Fairclough para encontrar elementos que corroboram a proposta deste trabalho de sugerir que existe uma identidade cultural homogênea entre as três fronteiras. Ao final da primeira parte trabalho conclui-se que existe, por parte da produção cultural local, um empenho em manter e difundir a identidade do gaúcho primitivo independentemente de que lado da fronteira ele se encontra.
Na segunda parte, destaca-se o território como elemento essencial para a formação da identidade cultural do gaúcho de fronteira. Para situar o leitor, o autor buscou o conceito de território do geógrafo e pesquisador Rogério Haesbaert, que diferencia território de territorialidade, mas que são interdependentes na formação simbólica da cultura e identidade do indivíduo no seu espaço de vivência.
Este texto, nem de perto tem a pretensão de ser conclusivo ou definir caminhos, apenas deseja contribuir para a reflexão sobre a formação da identidade do indivíduo e sua coletividade. Ele tem o intuito de mostrar que saber qual a sua origem é de grande importância para o autoconhecimento e, consequentemente, entender os processos de convivência coletiva. 

Os autores.

Ler é Poder


Ler é Poder 





Acabo de ler o mais novo livro do meu amigo Ramão Aguilar Aguilar, “Histórias Pitorescas de Geraldo Rodrigues”. Sabe aquela sensação de satisfação, quando fazemos algo que dá prazer? Pois é isto que estou sentindo agora. O livro é sobre um personagem real, mas parece ficcional. Aliás, bem que daria um bom romance (sugestão ao amigo Ramão). Ou quem sabe um bom filme (sugestão ao amigo Luca Amberg).

Primeiro, porque o livro registra histórias pitorescas, diferentes, engraçadas muitas vezes, tudo que uma boa história precisa. O livro trata de uma personalidade que não se encontra mais facilmente. Geraldo Rodrigues é daqueles que ainda acreditavam em valores. Claro, no modo dele, porque que hoje muitas das suas ações seriam condenáveis. Mas na época, as coisas eram como eram.

Segundo, o livro nos leva (os são-borjenses, como eu) a um período saudosista, embora eu não tenha vivido naquela época, eu me criei próximo aos cenários descritos pelo autor, no bairro do Passo. Meus primeiros anos (minhas primeiras memórias) remetem ao campo do exército, muito próximo da Sede Campeira Geraldo Rodrigues, no final da Rua Patrício Petit Jean, passando pelo cemitério do Passo, mais adiante. Lembro que a mãe, quando tinha que nos levar ao “povoado”, no centro da cidade, tinha que caminhar até a Praça Assis Brasil, do Passo, uns bons quatro quilômetros, para poder pegar o Emetral. Depois moramos na Rua Tiradentes e na Francisco Miranda e antes da juventude ainda moramos na curva do Passo, na Rua Júlio Tróis, isso tudo na década de 1970.

Então, enquanto lia as aventuras do seu Geraldo eu recordava dessa infância nesses lugares, por isso foi uma leitura emotiva para mim. Esse é o poder de um livro! Levar-nos ao futuro, ao passado, ao que está perto, ao que está muito longe, em lugares vividos e em situações jamais imaginadas. O slogan da Feira do Livro de Porto Alegre deste ano foi bem acertado: Ler é Poder! E o escritor Ramão Aguilar está contribuindo com esse poder - nos “empoderando”. Obrigado Ramão!

A Alegoria do Nori

A Alegoria do Nori
Por Cezar Brites





Um dia desses, meu amigo Nori, publicou essa foto acima no seu perfil do Facebook com a seguinte pergunta: "SERÁ QUE O FACEBOOK E SIMILARES SÃO PROFECIAS DE PLATÃO?".  Naturalmente é uma excelente inquisição, afinal, quem pode responder com apenas uma resposta objetiva? Porque poderíamos discorrer em vários caminhos, várias opiniões, vários pensamentos, como se tivéssemos um buffet de opções de respostas, na maioria prontas [se não todas]. 

O curioso mesmo [e aí é que tá a genialidade do poeta],  é que a pergunta foi feita exatamente "dentro" do facebook, como se os prisioneiros se perguntassem se as sombras fossem apenas sombras. Excelente proposta! Perguntar qual a verdade, sem precisar sair da caverna. Dentro de sua zona de segurança. Você sabe que isso é impossível, né! Esperar que por si só, preso por grilhões, possamos encontrar a verdade.

Segundo o filósofo, conhecer a verdade exige sair da caverna (será?), ver o mundo como ele é. Sofrer com ele. Odiá-lo [ou amá-lo]. Mas, mesmo saindo da gruta, estaremos diante da verdade? Platão encontro-a? Talvez, quem sabe? Mesmo depois de 2.500 anos a humanidade ainda anda perdida, e cada vez mais perdida. Pelo menos é o que nos mostram no horário nobre da plim-plim. 

Uma coisa é certa: algo tem que mudar nesse mundo. Mas, não será um trabalho simples. Afinal, não existe solução fácil (falarei mais sobre isso num próximo post). E tem mais, só há uma coisa que podemos mudar: nós mesmos! Mas, mudar como? mudar de que forma? mudar o quê? E as perguntas não param. Já tô me cansando. Será que sair da caverna é bom, mesmo?

"O que vem de baixo não me atinge"

"O que vem de baixo não me atinge."

Por Cezar Brites

Embora a frase do título seja repetida muito seguidamente, não é bem assim. Dificilmente encontramos uma "criatura" (para usar um termo da moda) que não se importe com o que vem de baixo. Especialmente se for uma crítica. A gente se importa sim. Podemos até fingir que não, mas importa e muito. Hoje, dividindo um mocaccino de máquina, no Caçula Mix, com um amigo, ele comentou que ficaria muito descontente se tivesse que sujeitar seu trabalho a um crítico que sabidamente produz um trabalho inferior. É verdade, pois a lógica nos leva a crer que somente alguém "superior", com mais conhecimento, titulação maior, possua mais troféus, mais medalhas, enfim, tu entendeu, né, tem o direito de analisar nosso trabalho. O chefe sim, o colega não.

No entanto, vivemos atualmente em um mundo em que todos tem uma opinião sobre tudo, seja ele qualificado ou não para opinar. Porém, será que precisamos ser doutor para ter opinião sobre algo? Dificilmente. Isso quer dizer que estou autorizado para criticar qualquer coisa? Parece que as pessoas em geral pensam que sim. Eu pensava assim. Até o dia em que comecei fazer uma graduação. Lá descobri que quanto mais aprofundava meu estudo sobre algo, menos sabia sobre ele. Assim, passei a ser mais seletivo sobre emitir opiniões. Cheguei a ficar até inseguro para conversar. Pois, sempre pensava "que iria falar alguma besteira". Para vencer essa barreira, comecei a rever todos os meus conceitos até então.

Te peço, meu querido leitor, para fazer uma breve interrupção para citar um pequeno exemplo de mudança radical de ideia que eu tinha. Sempre acreditei que existiam aqueles artistas iluminados que criaram obras autorais. Raciocinei que, embora tivessem se inspirados em outros, possuíam uma obra realmente original. Ledo engano. Hoje, digo, ontem, li o texto "Você não é criativo", de Jader Pires, editor do site Papo de Homem. Fiquei sabendo que até a mais famosa banda de rock nos anos 70, nos EUA,  Led Zeppellin era conhecida como ripoffs (imitadores) de outros artistas. Assim, voltou a minha insegurança de afirmar que existam artistas realmente autorais, originais. Percebeu o que aconteceu? Mais um paradigma que tenho que colocar no lixo.

Voltando ao assunto principal. Sim, o que vem de baixo nos atinge! Mas e o que vem de cima? Bem, sobre esse assunto terei que pesquisas mais um pouco antes emitir uma opinião. Então, até o próximo post.

P.S. (apesar que com a era digital, não há mais necessidades de se usar o subterfúgio do P.S.) Faço um agradecimento público ao Norinaldo que permitiu minha escrita, que tá mais para um andar errante, em seu Blog.

Música difícil de entender

Música difícil de entender

Por Cezar Brites


Assistindo a um show, outro dia, o artista comentou porque a música gaúcha não ganha espaço na grande mídia brasileira (indústria cultural). A resposta, dada por ele mesmo foi: é uma música que poucos podem entender, pois tem um linguajar próprio do sul riograndense, vinculada muito à cultura gaúcha. Embora ela, a música,  falasse de coisas universais o vocábulo usado é de conhecimento só de quem vive na região sul.

Eu vou além. Não é só isso não! Trata-se de uma música singular. Suas "imagens", "símbolos", vão além do conhecimento comum (ou senso comum). É necessário um pouco mais de bagagem informacional, ou, de estudo e leitura.

Veja um exemplo: agora a pouco, eu estava em um estúdio de gravação,  acompanhando a cantora Milena Belladona, de São Borja. Ela estava gravando dois sambas de autoria do Norinaldo Tavares. Na primeira estrofe - o samba tem apenas três - o compositor faz alusão à mitologia e aos filósofos gregos, bem como uma crítica literária a um escritor atual. Trata-se de uma música linda (não só pela voz doce da Milena, mas pela proposta do compositor). No entanto, confesso que é uma música que exige do ouvinte um punhado de leitura preparatória, para então entender a proposta do artista.

Claro que seria muito mais fácil escrever apenas um refrão ("lek lek lek"), mas, será que uma canção pode oferecer só isso?

Vamos a outro exemplo: há um tempo, quando os celulares permitiram que seus proprietários pudessem personalizar o toque de chamada, lá por 2005, ouvi "Bolero", de Ravel. Na época, os toques mais pareciam um teclado de criança brincar.  Achei estranho. Pois, aquele toque musical destruiu completamente com a proposta do compositor.

Como assim? A música tem 14 minutos (tem uma versão com 17) e, além disso, ela é singular pois tem apenas um único movimento. Sim, isso mesmo! Mas um único movimento que vai aos pouco numa crescente, em que cada instrumento da orquestra vai sendo acrescentado aos poucos, e com isso, vai arrebatando  o ouvinte, até chegar a um grande clímax! Então, quando a ouvi tocar no celular, como se fosse a música do entregador de gás, entendi o que é popularizar um clássico, isto é, tirar dela seu grande valor, que é: o envolvimento, aos poucos, do ouvinte. A música original é como ser levado, pela mão pelo compositor, por um passeio por todos os instrumentos musicais. Prazer que jamais teríamos ouvindo-a em apenas uma chamadinha no celular.

"Quando a poesia realmente fez folia em minha vida"

"Quando a poesia realmente fez folia em minha vida"


Quando Caetano Veloso cantava a frase do título desse texto, eu nem imaginava o potencial que uma poesia pode ter. Até lia algumas, mas sempre com a intenção de cantar algumas menininhas. Então, claro, Drummond fazia o maior sucesso. O próximo passo foi entender que o poder da poesia está na capacidade de criar imagens em nossa mente que talvez de outra forma seria impossível. E essa ideia eu levei para os romances. Um filme assistido depois de ter lido o livro era um desastre, e vice-versa. Então, virei radical, extremista e preconceituoso: ou eu lia, ou via, ou escutava. Não dava para misturar tudo, pois acreditava que um invalidava o outro.

Depois de um tempo peregrinando neste território comecei a me dar conta que eu estava perdendo muito por agir assim. Fui atrás para entender porque alguém se dá um trabalho de fazer um filme baseado em um romance, se o livro por si só é completo. Foi quando entendi que o tema é o mesmo, mas a linguagem é totalmente diferente, e portanto, as imagens, os símbolos, as mensagens eram diferentes ou complementares àquela outra obra. Um novo mundo se abriu novamente. 

Mas surgiu algumas dúvidas: "Então quer dizer que posso ilustrar uma poesia com uma foto? Não estarei induzindo o leitor/expectador a termos a mesma imagem, impedindo ele de criar a sua? Não estarei dirigindo a sensibilidade do outro?" Claro que não, são duas obras distintas, portanto, mais ricas. Elas se complementam, ou, até mesmo, se contradizem! Faz parte da arte. 

Por tudo isso, hoje fiquei muito feliz que pude admirar o trabalho do maior poeta sãoborjense de coração Apparício Silva Rillo, sendo ilustrado pelas fotos do talentoso fotógrafo Bira Azevedo. A exposição está em cartaz na Câmara de Vereadores de São Borja e vai ficar lá por um tempo. Vale apena ir. Quem sabe você saia de lá cantando "quando a poesia e a fotografia fizeram uma folia em minha vida". 

Vídeos produzidos por mim.

Eis alguns vídeos que me deu muito prazer em participar na produção:

Vídeo Institucional da Câmara de Vereadores de São Borja

Documentário:

Nos trilhos de Santiago do Boqueirão

Brincadeiras com os colegas da faculdade:

Brincadeira com colegas de turma

Retro Unipampa

Bastidores de um trabalho acadêmico

Telejornal experimental

Sim, nós já sabíamos!



Sim, nós já sabíamos!

Por Cezar Brites

[este texto faz parte do editorial do jornal Armazém da Cultura, ed. 11, de novembro de 2013]

Uma das capas do Jornal Armazém da Cultura nós dedicamos para justificar porque a Rádio Ipê é legal. Pode parecer incrível que tivemos que usar esse recurso - uma matéria de capa - para explicar o que a lei diz. Mas, o mais incrível é que a matéria foi motivada para rebater as acusações de outro veículo de comunicação, que em suas páginas não se cansou em difamar as rádios webs. O mais grave de tudo é que mesmo com todos os argumentos baseados na lei muitos leitores ainda acreditavam nas difamações. Por quê? Porque o veículo que publicava inverdades tem décadas de existência, assim, possuía uma credibilidade inabalável perante a comunidade.

Esse que é o agravante! Quando, apoiando-se em seu tempo de serviço, um veículo de comunicação usa de subterfúgios para manipular a opinião pública em prol de seus interesses comerciais. Com isso o veículo de comunicação deixa de fazer seu serviço (buscar o máximo de informação sobre o assunto, ouvindo todos os lados envolvidos) e passa a ser apenas um mandalete de seu chefe ou editor. Assim todos saem no prejuízo especialmente a sociedade, pois ela vai acreditar em inverdades e julgar os envolvidos no fato baseados no que leu no jornal.

Em 1992, eu fui vítima de um repórter. Ele me ligou para perguntar sobre um projeto que eu estava envolvido. Na hora eu fiquei perplexo, pois a informação que ele me passava me deixa em maus lençóis, pois eu também era vítima na situação. Assim, pedi para ele me ligar mais tarde, pois disse que eu iria apurar os fatos para poder falar sobre o assunto. Qual minha surpresa que não houve mais ligações e que foi publicado no dia seguinte apenas uma versão. E o repórter (que já era muito experiente, portanto, foi com má motivação que ele escreveu) afirmou que eu me neguei a falar sobre o assunto. Aquilo me custou muito, não em sentido financeiro, mas emocional. Desde então percebi que, às vezes, apenas por capricho, a imprensa pode prejudicar, e muito, a vida de uma pessoa.

Porém, a minha paixão pela comunicação não diminuiu. Só que agora a veja sempre com um pé atrás. Outra situação semelhante aconteceu no ano passado, conforme comecei o texto. No entanto, o Juiz de Direito Guilherme Beltrami, reafirmou o que foi publicado no Jornal Armazém, em detrimento ao que foi noticiado no tal jornal de “credibilidade”. Será que vai haver uma errata (correção que um jornal faz sobre algo que errou). Infelizmente, duvido muito. Afinal, o interesse não é pela verdade, mas pelo poder econômico. Como sempre foi, na história da humanidade. Não seria diferente em um jornal de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, em que os jovens moradores a chamam de Texas, uma terra sem lei.
Sim, a gente já sabia o que o Juiz diria, afinal, nós pesquisamos a lei antes de publicar sobre o assunto, afinal, acreditamos que é para isso que existimos, fazer um jornalismo ético e sério. Mesmo que a gente pague um preço, muitas vezes, muito caro. Ou demore muito para vir à tona a verdade dos fatos.

Portfólio: Cezar Brites

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